The Japan Times - Imóveis: ainda vale investir?

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Imóveis: ainda vale investir?




O início de 2026 encontra o mercado imobiliário brasileiro num cenário de equilíbrio delicado. Depois de um 2025 marcado por juros básicos nas alturas – a taxa Selic alcançou os maiores níveis em quase duas décadas – o setor mostrou resiliência; os preços médios de imóveis em grandes cidades continuaram a crescer acima da inflação. Mesmo com crédito caro, o volume de lançamentos e vendas fechou 2025 com expressivo crescimento: a consultoria IBRESP registrou aumento de 31,9 % no número de unidades lançadas e 34,6 % em valor, enquanto as vendas de imóveis novos subiram 6,9 % em volume. O déficit habitacional superior a oito milhões de unidades mantém a demanda estrutural, e o programa habitacional Minha Casa Minha Vida ampliou seu escopo com a criação da Faixa 4, que atende famílias com renda de até R$ 12 mil e permite financiamentos de até R$ 2,25 milhões.

A expectativa dominante é de queda gradual da Selic ao longo de 2026, o que tende a baratear o crédito imobiliário e a ampliar o acesso a financiamentos. O Banco Central projeta um Produto Interno Bruto (PIB) crescendo em torno de 2,5 %, cenário que torna o setor imobiliário ainda mais atraente. Lançamentos equilibrados com vendas e projeção de R$ 375 bilhões em financiamento imobiliário para 2026 indicam que o mercado está longe de uma bolha. Contudo, a Selic ainda elevada no início do ano obriga investidores a comparar o custo de oportunidade com aplicações de renda fixa: num exemplo de financiamento de R$ 400 mil a 10,5 % ao ano, a parcela inicial seria de cerca de R$ 3.780, enquanto um CDB rendendo 110 % do CDI poderia proporcionar quase R$ 1.950 líquidos por mês.

Imóveis residenciais: segurança e liquidez moderada
O investimento em imóveis residenciais continua a ser visto como opção segura e tangível. A necessidade constante de moradia reduz a sensibilidade a crises económicas, e a locação é relativamente fácil de administrar. Dados de mercado indicam rentabilidades médias entre 5 % e 8 % ao ano em aluguéis residenciais; embora inferior à de imóveis comerciais, essa renda costuma ser mais estável. Outro atrativo é a menor complexidade na gestão: contratos de locação são padronizados, e a legislação oferece algum grau de proteção ao proprietário.

Entretanto, a rentabilidade limitada exige atenção ao custo de oportunidade. Em muitas capitais, a soma do aluguel mensal não cobre a prestação de um financiamento; um usuário relatou pagar R$ 1.300 de aluguel numa casa que vale cerca de R$ 400 mil, o que corresponde a retorno anual próximo de 4 %, inferior a aplicações de renda fixa. Além disso, a rotatividade dos inquilinos tende a ser maior, gerando períodos de vacância e custos de manutenção. Mudanças na legislação de aluguel também podem impactar negativamente o rendimento. Por isso, analistas recomendam que a compra de imóvel para renda residencial faça sentido apenas para quem possui capital próprio elevado e horizonte de longo prazo – sobretudo se o objetivo principal for segurança patrimonial ou moradia para a família.

Imóveis comerciais: maior retorno, maior risco
Investir em imóveis comerciais em 2026 pode ser mais rentável, com alugueis médios entre 8 % e 12 % ao anoe contratos mais longos (de 3 a 10 anos) que oferecem renda previsível. A menor rotatividade de inquilinos reduz a vacância e cria um fluxo de caixa estável. Salas comerciais bem localizadas ou lojas em ruas movimentadas têm preços atrativos após a pandemia; alguns investidores destacam ruas de bairros paulistanos com potencial de forte valorização.

Por outro lado, o setor comercial é mais vulnerável a oscilações económicas. Em tempos de crise, empresas reduzem operações ou fecham as portas, aumentando o risco de vacância. Os custos de manutenção são mais altos, pois o proprietário precisa adaptar o espaço às necessidades de cada locatário, e a gestão exige conhecimento específico e tempo. A tendência de trabalho remoto e a digitalização de serviços reduziu a demanda por grandes escritórios; por isso, especialistas aconselham priorizar imóveis de uso misto, galpões logísticos voltados ao comércio eletrónico e salas compactas adaptáveis. Uma tabela comparativa de 2026 mostra que imóveis comerciais combinam rentabilidade anual de 8 % a 12 %, risco de vacância moderado e alta complexidade de gestão, enquanto os residenciais entregam 5 % a 8 %, risco de vacância mais elevado e gestão mais simples.

Tendências e oportunidades
O setor segue em evolução acelerada. A expansão do Minha Casa Minha Vida continuará impulsionando o mercado popular, com crescimento de 15 % em volume e 16,5 % em valor na comercialização de unidades populares em 2025. Para a classe média, surgiu uma nova modalidade de crédito para rendas de até R$ 20 mil, ampliando as possibilidades de financiamento. Paralelamente, a preferência por imóveis compactos e inteligentes, condomínios com áreas de lazer amplas e soluções sustentáveis deve ganhar força. Edifícios certificados por selos ambientais (LEED/AQUA) apresentam prêmios de 8 % a 15 % no valor de venda.

Outra tendência é a locação flexível para curta temporada, impulsionada por plataformas como Airbnb. Em cidades turísticas, um studio de 30 m² pode gerar receita de R$ 4.000 a R$ 8.000 por mês, bem acima do aluguel convencional. O coliving surge como resposta ao encarecimento do metro quadrado nas capitais e às mudanças de hábitos das gerações mais jovens. Por fim, a digitalização reduz a burocracia: plataformas de avaliação automatizada, assinatura digital e cartórios eletrónicos diminuíram o tempo médio de fechamento de uma operação de 45 para menos de 15 dias.

O que dizem os investidores e consumidores
A percepção do público reflete a diversidade do mercado. Muitos comentários de investidores ressaltam que imóvel para investimento requer cálculo cuidadoso: há relatos de proprietários que mantêm apartamentos vazios porque o aluguel não compensa despesas de condomínio e IPTU. Outros sugerem que, para exposição imobiliária com maior liquidez, é mais eficiente investir em fundos imobiliários (FIIs), medidos pelo índice IFIX, que oferece rendimento mensal sem a necessidade de lidar com inquilinos. Várias pessoas observam que, em alguns bairros, casas antigas rendem aluguéis baixos em relação ao valor de mercado, enquanto lojas de rua em áreas comerciais com forte movimento podem se valorizar rapidamente. Há também relatos de migração de famílias de grandes capitais para regiões serranas em busca de qualidade de vida; esse fluxo aqueceu a construção civil nessas áreas e elevou os aluguéis, ao mesmo tempo em que pressiona a infraestrutura local. Em síntese, o sentimento predominante é cautela: investir em imóvel físico não garante retornos altos imediatos e exige visão de longo prazo, mas pode ser um bom instrumento de diversificação patrimonial.

Considerações finais
Investir em imóveis residenciais e comerciais em 2026 pode valer a pena, desde que o investidor leve em conta o contexto macroeconómico, o custo de oportunidade e as especificidades de cada segmento. A expectativa de queda gradual dos juros favorece o setor e deve baratear financiamentos, ao passo que o déficit habitacional e programas de incentivo mantêm a demanda sustentada. Imóveis residenciais oferecem segurança, liquidez moderada e gestão simples, mas a rentabilidade é menor e a vacância pode corroer o retorno. Imóveis comerciais prometem renda mais alta e contratos longos, mas são mais sensíveis a crises e exigem gestão ativa.

Quem busca diversificação de carteira e proteção patrimonial deve analisar cada negócio individualmente, avaliar localização, liquidez e horizonte de investimento e considerar alternativas como fundos imobiliários ou títulos indexados à inflação. No fim das contas, o sucesso no mercado imobiliário não depende de modismos, mas de planejamento, disciplina e paciência.