The Japan Times - Tensão Irã, Lula e inflação

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Tensão Irã, Lula e inflação




Desde 28 de fevereiro de 2026 os Estados Unidos e Israel conduzem uma ampla campanha militar contra o Irã com o objetivo de degradar a capacidade naval, balística e nuclear de Teerã. Especialistas apontam que mais de 11 000 alvos já foram atingidos, incluindo navios, instalações de mísseis e drones, usinas e centros de comando. A ofensiva provocou a morte de dezenas de líderes políticos e militares iranianos e deixou pelo menos 13 soldados norte‑americanos mortos após ataques de retaliação, além de um aviador desaparecido.

O governo iraniano fechou o estreito de Ormuz — rota por onde passa cerca de 30% do petróleo comercializado no mundo — e permite apenas a passagem de navios de países considerados neutros ou alinhados a Teerã. O bloqueio provocou forte aumento dos preços internacionais de energia: o barril do Brent subiu para cerca de 109 dólares, um salto de 65% em relação aos níveis anteriores à guerra. O Irã afirma que só reabrirá totalmente a rota se receber reparações financeiras e garantias de que não voltará a ser atacado.

A escalada não se limita ao estreito. Israel e EUA bombardearam dezenas de cidades iranianas, inclusive Teerã, atingindo pontes, usinas elétricas, universidades e bases militares. Milhares de civis morreram ou ficaram feridos em ataques que incluem relatos de bombardeios a praças e áreas residenciais. Teerã responde com drones e mísseis contra bases americanas no Golfo, Israel e navios comerciais. Segundo a Al Jazeera, pelo menos 1 444 pessoas foram mortas e 18 551 feridas no Irã desde o início da ofensiva.

A retórica também é explosiva. Donald Trump, de volta à Casa Branca, ameaça atacar usinas e pontes iranianas caso o estreito não seja reaberto. Autoridades iranianas advertiram que uma nova fase de operações será “muito mais devastadora” se Washington atingir alvos civis. Ao mesmo tempo, mediadores do Egito, Paquistão e Turquia propuseram um cessar‑fogo de 45 dias para permitir negociações e reabrir a rota estratégica, mas o resultado é incerto.

Há risco de invasão terrestre?
Embora a expressão “invasão” retorne com frequência, analistas militares lembram que os EUA já controlam o espaço aéreo e marítimo iraniano. A destruição de bases e o bloqueio econômico já colocam Teerã sob enorme pressão. Uma invasão terrestre clássica exigiria centenas de milhares de soldados e provavelmente desencadearia resistência feroz nas cidades iranianas. Até o momento, Washington mantém a ofensiva aérea e naval; reforçou a presença no Golfo com 10 000 drones interceptadores e estuda enviar navios anfíbios com 2 500 fuzileiros. O objetivo declarado de Trump é forçar o Irã a negociar e a cessar atividades nucleares e de mísseis.

Vozes de mercados e redes sociais divergem sobre as intenções americanas. Alguns observadores argumentam que o país busca apenas garantir a passagem de navios e preservar sua credibilidade militar; outros consideram que a campanha abre caminho para a derrubada do regime iraniano. Há críticas à falta de solidariedade europeia: a União Europeia tem sido acusada de “ornamento” na crise, limitada a declarações diplomáticas. Comentários nas redes apontam que a China assiste de camarote, beneficiando‑se da valorização do petróleo enquanto Washington gasta recursos em um conflito de difícil saída.

Eleições de 2026 no Brasil: Lula ficará fora da disputa?
O cenário político brasileiro rumo a 2026 está turbulento. No Congresso Nacional, duas Propostas de Emenda à Constituição tramitam para extinguir a possibilidade de reeleição para cargos do Executivo. A mais recente, apresentada pelo senador Flávio Bolsonaro, prevê que presidentes, assim como quem os substituir nos seis meses anteriores ao pleito, fiquem impedidos de concorrer imediatamente ao mesmo cargo. O texto manteria a reeleição para governadores e prefeitos e, se aprovado, poderia valer já para as eleições de 2026. Outra emenda, a PEC 12/2022, mais avançada, estende o fim da reeleição para governadores e prefeitos e amplia os mandatos para cinco anos.

Além de mudanças legislativas, pressões internacionais e internas colocam a possível candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva em debate. O semanário britânico The Economist publicou editorial defendendo que Lula não dispute a reeleição em 2026. A revista argumenta que, aos 80 anos, o presidente corre risco de declínio cognitivo e que “os brasileiros merecem opções melhores”. O artigo também critica as políticas econômicas do governo, consideradas mediocres, apesar do bom desempenho recente, e avalia que Lula poliria seu legado ao abrir mão da corrida eleitoral.

Os aliados rebatem a crítica, lembrando que Lula recuperou popularidade após derrotar Jair Bolsonaro em 2022 e colocar a economia brasileira de volta aos trilhos com crescimento moderado e programas sociais. Entretanto, até mesmo membros do governo reconhecem que o caminho para a reeleição ficou mais difícil. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, admitiu que o crescimento de Flávio Bolsonaro nas pesquisas complica o cenário. Ele afirmou que pensava que a disputa seria mais tranquila, mas agora o “céu está menos azul” e avalia apoiar um nome alternativo do PT para governador de São Paulo.

Os rumores nas ruas e nas redes sugerem que a idade avançada, possíveis limitações de saúde e o desgaste institucional pesam contra a candidatura de Lula. Parte do eleitorado acredita que uma nova geração deve assumir a liderança. Outros se preocupam com a falta de opções de centro‑esquerda. Há também críticas de que Lula tem nomeado aliados ao Supremo Tribunal Federal e imposto novos impostos com frequência, o que, segundo adversários, enfraquece os freios e contrapesos.

Impactos da guerra na inflação global
Desde a pandemia de COVID‑19, a inflação global se mantém acima das metas de bancos centrais, impulsionada por gargalos nas cadeias de suprimentos e salários elevados. A J.P. Morgan Research observa que o núcleo da inflação global permanece em torno de 3% desde 2024 e projeta que em 2026 ficará próximo de 2,8%, com divergências regionais: 3,2% nos Estados Unidos, 2,4% no Reino Unido e 1,9% na zona do euro. A instituição prevê que a pressão sobre bens e serviços irá diminuir gradualmente, mas alerta para discrepâncias regionais, com aceleração da inflação nos EUA e moderação na Europa.

A guerra no Irã pode, contudo, inviabilizar essas projeções. Segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a interrupção do estreito de Ormuz e o aumento do petróleo testam a resiliência da economia mundial. O relatório interino do organismo afirma que a alta dos preços de energia eleva a inflação e que, nos Estados Unidos, o índice geral pode atingir 4,2% em 2026. O G20 também poderia ver a inflação subir para 4%, ante previsão anterior de 2,8%. A OCDE adverte que, num cenário em que o barril chegue a 135 dólares, a inflação global poderia aumentar 0,7 ponto percentual em 2026 e 0,9 ponto em 2027.

Os efeitos já são sentidos na Europa. O comissário de energia da União Europeia, Dan Jørgensen, alertou que os preços de petróleo e gás não voltarão a níveis normais tão cedo, mesmo que a guerra termine. O bloco enfrenta pressões no abastecimento de diesel e querosene e observa “constrangimentos crescentes” no mercado global de gás, o que está elevando as tarifas de eletricidade. O preço do gás subiu cerca de 70% e o do petróleo 60% desde o início do conflito, elevando em 14 mil milhões de euros a fatura de combustíveis fósseis da UE. Bruxelas prepara um pacote de medidas para ajudar famílias e empresas, incluindo corte temporário de impostos sobre eletricidade e eventual taxação de lucros extraordinários das empresas de energia.

Na Ásia, países altamente dependentes de importações de energia enfrentam “riscos imediatos”, segundo a OCDE. A valorização do petróleo encarece transportes, fertilizantes e alimentos, pressionando ainda mais a inflação. Economistas lembram que altas prolongadas podem forçar bancos centrais a manter juros elevados por mais tempo e comprometer a recuperação pós‑pandemia.

Percepções sociais e reflexos no cotidiano
Além das análises técnicas, opiniões populares revelam apreensões variadas. Muitos cidadãos acreditam que os Estados Unidos perderam influência e estão “dando um tiro no pé” ao prolongar o conflito, enquanto a China observa e se beneficia da turbulência no mercado de commodities. Outros criticam a postura da União Europeia e do presidente francês Emmanuel Macron, vistos como incapazes de exercer liderança num momento decisivo.

No Brasil, a instabilidade externa reacende debates sobre política econômica. Perguntas recorrentes surgem em conversas informais: a Petrobras deve repassar imediatamente os aumentos do petróleo ou segurar preços para evitar forte inflação doméstica? Há quem defenda que a estatal mantenha preços internos mais baixos para proteger os consumidores, enquanto outros alertam que esse controle artificial gera defasagens e distorções. A alta dos juros reais e a constante criação de impostos também geram descontentamento, com alguns investidores reclamando que a renda fixa não remunera o suficiente frente à inflação oficial.

Curiosamente, a crise desperta reflexões triviais: com o chocolate encarecido por causa do aumento do cacau e do petróleo, muitos brasileiros desabafam que ovos de Páscoa estão mais caros do que barras de chocolate com o mesmo peso. Há também quem critique a atenção dada a temas externos enquanto problemas internos persistem, como a fragilidade das refinarias nacionais e a dependência de importações de diesel.

Perspectivas e caminhos possíveis
A soma de guerra, incerteza eleitoral no Brasil e inflação persistente forma um panorama desafiador. O conflito no Oriente Médio tende a durar meses e ainda não há sinais de trégua duradoura. Embora uma invasão terrestre completa dos EUA ao Irã pareça improvável devido aos altos custos humanos e políticos, a escalada retórica mantém o mundo em alerta.

No Brasil, a discussão sobre a reeleição de Lula depende tanto de fatores jurídicos — aprovação ou não das PECs — quanto da percepção pública. Se as mudanças constitucionais avançarem, qualquer presidente eleito em 2026 poderá ter apenas um mandato. Mesmo que Lula opte por não concorrer, o Partido dos Trabalhadores precisará articular uma candidatura competitiva para enfrentar adversários fortalecidos e uma sociedade polarizada.

Do ponto de vista econômico, o ciclo de alta de juros deve permanecer enquanto as incertezas persistirem. Se o estreito de Ormuz permanecer fechado e o petróleo continuar acima de 100 dólares, as projeções de inflação terão de ser revisadas para cima. Governos e bancos centrais terão de equilibrar medidas de apoio a famílias e empresas com a necessidade de controlar preços. A cooperação internacional — inclusive com países produtores de energia fora do conflito — será essencial para evitar que a crise se torne uma recessão global.

Diante de tantas variáveis, uma conclusão se impõe: 2026 será um ano decisivo em que geopolítica, política interna e economia mundial se entrelaçam de maneira inédita. A sociedade civil, investidores e governantes terão de acompanhar de perto os desdobramentos no Golfo Pérsico e em Brasília, conscientes de que suas decisões terão impactos muito além das fronteiras nacionais.