The Japan Times - Queda muda tudo no Irã

EUR -
AED 4.331285
AFN 75.468553
ALL 95.455853
AMD 435.133136
ANG 2.110613
AOA 1082.496254
ARS 1649.279971
AUD 1.625795
AWG 2.125489
AZN 2.009303
BAM 1.960362
BBD 2.374715
BDT 144.673819
BGN 1.967008
BHD 0.445031
BIF 3508.088307
BMD 1.179189
BND 1.49518
BOB 8.147963
BRL 5.795828
BSD 1.179039
BTN 111.34021
BWP 15.830843
BYN 3.332255
BYR 23112.111202
BZD 2.371308
CAD 1.612011
CDF 2670.864298
CHF 0.916177
CLF 0.026704
CLP 1051.00014
CNY 8.019372
CNH 8.014083
COP 4422.526062
CRC 542.013173
CUC 1.179189
CUP 31.248518
CVE 110.903223
CZK 24.334582
DJF 209.565995
DKK 7.476537
DOP 69.985351
DZD 155.960046
EGP 62.195977
ERN 17.68784
ETB 185.491052
FJD 2.574218
FKP 0.866493
GBP 0.864889
GEL 3.154379
GGP 0.866493
GHS 13.313508
GIP 0.866493
GMD 86.674958
GNF 10353.282886
GTQ 9.002953
GYD 246.714182
HKD 9.235117
HNL 31.390478
HRK 7.538916
HTG 154.379289
HUF 353.981307
IDR 20491.303919
ILS 3.421187
IMP 0.866493
INR 111.345548
IQD 1544.738045
IRR 1546506.829043
ISK 143.873347
JEP 0.866493
JMD 185.842514
JOD 0.836092
JPY 184.734208
KES 152.328133
KGS 103.085327
KHR 4728.549695
KMF 492.90156
KPW 1061.212561
KRW 1723.880942
KWD 0.36279
KYD 0.982687
KZT 544.929701
LAK 25889.102525
LBP 105596.406437
LKR 379.599647
LRD 216.385693
LSL 19.327363
LTL 3.48184
LVL 0.71328
LYD 7.458419
MAD 10.754655
MDL 20.163928
MGA 4911.324039
MKD 61.616155
MMK 2475.833955
MNT 4220.203791
MOP 9.507427
MRU 47.102764
MUR 55.210091
MVR 18.163925
MWK 2054.148249
MXN 20.255648
MYR 4.623647
MZN 75.362436
NAD 19.327358
NGN 1609.593864
NIO 43.293982
NOK 10.859513
NPR 178.160636
NZD 1.976185
OMR 0.453919
PAB 1.179144
PEN 4.04993
PGK 5.129916
PHP 71.358689
PKR 328.581553
PLN 4.239717
PYG 7202.120307
QAR 4.29269
RON 5.21945
RSD 117.297547
RUB 87.543025
RWF 1722.206041
SAR 4.459737
SBD 9.456429
SCR 16.459646
SDG 708.107537
SEK 10.86706
SGD 1.494391
SHP 0.880384
SLE 29.067455
SLL 24727.006491
SOS 673.91103
SRD 44.100547
STD 24406.83871
STN 24.939855
SVC 10.317092
SYP 130.352242
SZL 19.303765
THB 37.973479
TJS 11.001504
TMT 4.127163
TND 3.379601
TOP 2.839205
TRY 53.475102
TTD 7.990886
TWD 36.927538
TZS 3063.998569
UAH 51.791223
UGX 4417.888438
USD 1.179189
UYU 47.025255
UZS 14309.46312
VES 588.693738
VND 31022.113342
VUV 139.175172
WST 3.188636
XAF 657.487181
XAG 0.014668
XAU 0.00025
XCD 3.186819
XCG 2.124956
XDR 0.82014
XOF 657.402298
XPF 119.331742
YER 281.384102
ZAR 19.315951
ZMK 10614.123377
ZMW 22.449247
ZWL 379.698489

Queda muda tudo no Irã




A partir de 28 de dezembro de 2025, o Irão entrou numa espiral de protestos e greves que rapidamente se alastrou a todo o país. A crise foi desencadeada por um colapso económico alimentado por inflação superior a 50% e desvalorizações cambiais que tornaram essencialmente impossível a reposição de bens essenciais. Os protestos não ficaram confinados a questões económicas: transformaram‑se em pedidos abertos de derrubada da República Islâmica e de transição para um sistema que respeitasse a dignidade humana.

As autoridades responderam com uma repressão feroz. Há relatos credíveis de milhares de mortos nas ruas de várias cidades iranianas; testemunhas referem que as forças de segurança disparavam de telhados e ruas contra manifestantes desarmados, atingindo‑os frequentemente na cabeça e no tronco. Um relatório citando fontes médicas locais estimou que o número de civis mortos pode ultrapassar 20 000, enquanto as autoridades reconhecem pouco mais de 3 000 mortos. Além das mortes, dezenas de milhares de pessoas foram presas, outras desapareceram ou estão a ser procuradas por familiares em morgues improvisadas.

A repressão incluiu também tácticas económicas. Empresas consideradas solidárias com as greves viram os seus ativos confiscados, retomando uma prática de expropriação com raízes nos primeiros anos da revolução. Para muitos iranianos, até sair de casa tornou‑se perigoso; tanques patrulham as ruas e as forças de segurança ocupam bairros residenciais. A internet foi cortada, paralisando centenas de milhares de pequenos negócios dependentes das redes sociais.

Por que o regime está em risco
Os protestos expõem fragilidades estruturais acumuladas ao longo de décadas. A moeda iraniana perdeu mais de 99 % do seu valor desde 1979, reflectindo décadas de má gestão e sanções. A inflação a 70 % no sector alimentar levou comerciantes de bazares e classes médias a juntarem‑se aos mais pobres nas ruas. A capacidade do regime para reprimir depende de uma elite cada vez mais reduzida e concentrada em torno do líder supremo e da Guarda Revolucionária. Figuras históricas da revolução estão em prisão domiciliária ou marginalizadas, e tecnocratas foram substituídos por leais ideológicos. Mesmo comerciantes que outrora apoiaram a revolução sentem‑se agora excluídos de uma economia dominada por redes para‑estatais.

Além da crise económica, os protestos revelam uma cisão geracional e cultural. Mulheres e jovens, muitos influenciados por redes sociais e culturas globais, desafiam códigos de vestuário e exigem direitos iguais. Minorias religiosas, como cristãos e bahá’ís, denunciam décadas de perseguição. A população urbana educada, habituada a estudar no exterior, recusa‑se a aceitar um Estado que restringe a liberdade de expressão e criminaliza a dissent.

O que mudará se a República Islâmica cair
- Transição política e direitos humanos: A queda do regime poderá abrir espaço para um governo de transição, possivelmente baseado numa coligação entre figuras reformistas, representantes da diáspora e líderes de protestos. Organizações de direitos humanos apontam que as reivindicações centrais dos manifestantes incluem eleições livres, separação entre religião e Estado e responsabilização de agentes de segurança pelos massacres.

- Fim da polícia moral e novos direitos para as mulheres: A dissolução da República Islâmica provavelmente implicaria o fim da “polícia da moralidade” e das leis obrigatórias sobre o véu. O movimento actual já é liderado por mulheres que desafiam abertamente essas regras. Uma nova ordem poderia consagrar igualdade de género e eliminar restrições à educação e ao trabalho femininos.

- Liberdade religiosa: A perseguição sistemática a minorias religiosas, incluindo cristãos, judeus e bahá’ís, poderá cessar. Actualmente, apenas cerca de 1 % dos iranianos se identifica como cristão segundo dados oficiais, mas estudos indicam que a cifra real pode ser muito maior; muitos praticam a fé em segredo para evitar prisão ou tortura. A queda do regime permitiria que esses grupos praticassem abertamente a sua religião.

- Reformas económicas: O fim do modelo económico dominado por fundações controladas pela Guarda Revolucionária e pelo gabinete do líder supremo poderia abrir o mercado a investidores nacionais e estrangeiros, reduzir o papel das sanções e possibilitar a reintegração do Irão no sistema financeiro global. No entanto, a estabilização exigirá recuperar confiança na moeda, atrair capital e combater décadas de corrupção.

- Justiça e reconciliação: As famílias das vítimas exigem justiça. Segundo organizações de direitos humanos, milhares de manifestantes foram mortos ou desaparecidos durante a repressão de Janeiro de 2026. Um governo pós‑islâmico teria de enfrentar o legado de violações, possivelmente criando comissões de verdade ou julgamentos contra perpetradores.

Impacto regional e internacional
- Redesenho das alianças: O Irão tem sido um aliado crucial de potências como Rússia e China e um desafio central para os Estados Unidos e Israel. Analistas observam que Moscovo procurará manter a sua influência, adaptando‑se a qualquer novo governo em Teerão. Uma mudança de regime poderia realinhar o Irão com o Ocidente, mas também poderia levar a uma política externa pragmática que equilibra relações com potências rivais.

- Segurança regional: O Irão desempenha um papel activo no Iraque, na Síria, no Líbano e no Iémen através de milícias aliadas. A queda da República Islâmica deixaria em aberto o futuro dessas alianças. Um governo mais focado em reconstruir o país pode reduzir o apoio a grupos armados, abrindo espaço para negociações regionais. Por outro lado, se o colapso for caótico, facções rivais podem tentar manter influência através dessas redes.

- Mercados energéticos: O Irão possui uma das maiores reservas de petróleo e gás do mundo. Sanções e infraestrutura degradada limitaram as exportações. Um novo governo, reconhecido internacionalmente, poderia aumentar rapidamente a produção, pressionando os preços globais de energia e alterando o equilíbrio da OPEP. Isso beneficiaria economias importadoras, mas prejudicaria concorrentes regionais.

- Programa nuclear: As tensões em torno do programa nuclear iraniano aumentaram nas últimas décadas. Um governo pós‑islâmico poderia retomar negociações para limitar o enriquecimento e permitir inspeções em troca de alívio das sanções. Este passo reduziria significativamente o risco de um conflito regional e mudaria a dinâmica de segurança no Médio Oriente.

- Diaspora e retorno: Milhões de iranianos vivem no estrangeiro. A queda do regime poderia incentivar o retorno de profissionais qualificados, empreendedores e figuras políticas da diáspora. Esse retorno seria fundamental para a reconstrução económica e institucional do país.

Riscos e incertezas
A perspectiva de queda da República Islâmica enche muitos iranianos de esperança, mas também levanta receios. A transição poderá ser turbulenta; a Guarda Revolucionária, ainda coesa e bem armada, poderá tentar preservar privilégios e influenciar qualquer arranjo pós‑queda. A ausência de uma oposição unificada e de instituições democráticas sólidas aumenta o risco de fragmentação e luta interna, como advertido por analistas políticos.

A história de outras revoluções mostra que a mudança de regime não garante democracia nem estabilidade. O exemplo de países da Primavera Árabe demonstra que forças autoritárias podem preencher rapidamente o vazio deixado por ditaduras. Além disso, atores externos podem tentar moldar a transição de acordo com os seus interesses, quer através de apoio financeiro, quer de intervenções militares.

Conclusão
O descontentamento profundo da sociedade iraniana, a crise económica e a erosão da legitimidade política colocam a República Islâmica perante a maior ameaça da sua existência. A repressão brutal de Janeiro de 2026 mostrou que o regime está disposto a massacrar cidadãos para se manter no poder. Contudo, as mudanças demográficas, culturais e tecnológicas que estão a impulsionar os protestos tornam difícil um retorno ao status quo.

Se a República Islâmica cair, o Irão poderá iniciar um processo de reconstrução que alterará o equilíbrio de poder no Médio Oriente e terá efeitos globais — desde a defesa dos direitos humanos até aos mercados de energia. A forma como essa transição será conduzida determinará se o país concretizará as aspirações de liberdade e prosperidade ou se entrará numa nova era de incerteza.