The Japan Times - Mulheres russas rejeitam planos de terapia para incentivá-las a ter filhos

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Mulheres russas rejeitam planos de terapia para incentivá-las a ter filhos
Mulheres russas rejeitam planos de terapia para incentivá-las a ter filhos / foto: OLGA MALTSEVA - AFP

Mulheres russas rejeitam planos de terapia para incentivá-las a ter filhos

Mulheres russas afirmam que a ideia de submetê-las à psicoterapia para que tenham filhos é coercitiva, cruel e inviável, e não ajudará a reverter a queda nas taxas de natalidade, as mais baixas em 200 anos.

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O Ministério da Saúde aprovou em fevereiro novas diretrizes que recomendam aos profissionais de saúde encaminhar para terapia psicológica mulheres que se recusam a ter filhos, com o objetivo de "promover uma atitude positiva em relação à maternidade".

A Rússia enfrenta uma crise demográfica, com uma taxa de fecundidade de 1,4 filho por mulher, bem abaixo do nível de 2,1 que, segundo especialistas, é necessário para manter a população estável. O problema se agravou com o envio de milhares de homens jovens para a guerra com a Ucrânia nos últimos quatro anos.

Várias mulheres que falaram com a AFP e pediram para ser identificadas apenas pelo primeiro nome afirmaram que o plano não funcionará.

"Não me vejo como mãe e não vejo nenhuma razão para acreditar que ter filhos me fará mais feliz", disse Maria, especialista em tecnologia da informação de 25 anos.

"Posso mudar de opinião, mas o Estado está fazendo todo o possível para garantir que isso não aconteça", acrescentou.

O presidente russo, Vladimir Putin, advertiu que seu país pode enfrentar uma "verdadeira extinção" se as atuais taxas de natalidade persistirem.

Os legisladores também proibiram a chamada "propaganda anti-filhos", ao vetar debates na imprensa sobre a opção de não ter filhos.

Quem descumprir essa proibição pode ser multado em até 400 mil rublos (cerca de R$ 26,4 mil).

- Cultura da paternidade -

Maria classificou como "patéticos" os esforços do governo para tirar a Rússia da estagnação demográfica.

"Apertar os parafusos, tornar o aborto seguro inacessível, doutrinar as pessoas, ostentar pagamentos de benefícios elevados, enviá-las ao psicólogo. É cruel e completamente ineficaz", afirmou.

As autoridades também endureceram as leis sobre aborto nos últimos anos, obrigando clínicas privadas na maioria das regiões a proibir o procedimento.

"Todo mundo entende o que as mulheres realmente querem: garantias sociais, renda adequada, acesso à moradia e, o mais importante, tranquilidade e segurança", afirmou Maria.

A ofensiva russa contra a Ucrânia e as sanções internacionais decorrentes desse conflito provocaram inflação, entre outros efeitos negativos.

As taxas de juros hipotecários chegaram a 20%.

"Primeiro é preciso criar condições que façam as mulheres realmente quererem ter filhos, e não pressioná-las de todas as formas possíveis", afirmou Anastasia, especialista em reabilitação infantil de 29 anos.

Anastasia disse ter razões "financeiras" para não querer um filho.

"Meu salário é de cerca de 100 mil rublos (cerca de R$ 6,3 mil). Não vejo como é possível economizar para um apartamento", explicou.

Mas também mencionou uma "falta de cultura da paternidade".

Na Rússia, "poucos homens participam da criação dos filhos", segundo Anastasia. Após os divórcios, "os homens vão embora e deixam as mulheres sozinhas com as crianças".

A Rússia é o terceiro país do mundo em número de divórcios. Em 2024, oito em cada dez casamentos russos terminaram em divórcio, segundo o instituto estatal VCIOM.

- Por que forçar as mulheres? -

Margarita, professora de inglês que não pode ter filhos por razões médicas, teme que a iniciativa do Ministério da Saúde "cause ainda mais danos à saúde mental das mulheres".

Mães ouvidas pela AFP também criticaram a medida.

"Acho que uma mulher tem o direito de não querer ter filhos. Por que dar à luz se não quer? Por que forçar as mulheres a terem filhos indesejados?", questionou Irina, médica de 45 anos e mãe de dois filhos.

Homens russos ouvidos pela AFP se mostraram menos preocupados.

Entre eles, Maxim, de 49 anos, considerou que a diretriz do ministério é apenas uma recomendação, mas afirmou que não ter filhos "não é saudável".

M.Ito--JT