The Japan Times - Pinochet, mais presente do que nunca 50 anos após o golpe militar no Chile

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Pinochet, mais presente do que nunca 50 anos após o golpe militar no Chile
Pinochet, mais presente do que nunca 50 anos após o golpe militar no Chile / foto: DAVID LILLO - AFP/Arquivos

Pinochet, mais presente do que nunca 50 anos após o golpe militar no Chile

Há meio século, um general de peito inflado e óculos escuros quebrou a democracia chilena com um golpe sangrento. Fez com que milhares de pessoas fossem torturadas e executadas, mas longe da condenação unânime, a figura de Augusto Pinochet voltou a emergir com força no Chile.

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O militar, que morreu em 2006 sem pisar na prisão ou em um julgamento judicial, é o símbolo da direita ultraconservadora que domina o cenário eleitoral chileno, quando, paradoxalmente, governa o herdeiro de esquerda de Salvador Allende, o presidente marxista que Pinochet derrubou há meio século, em plena Guerra Fria, com a aprovação dos Estados Unidos.

"Ele é o único ditador do Ocidente na história contemporânea que, 50 anos depois de dar um golpe de Estado, tem mais de um terço da população a seu favor", afirma a socióloga Marta Lagos, diretora do instituto de pesquisas Mori.

De fato, nunca antes Pinochet foi tão popular em uma democracia como é agora: 36% da população acredita que ele "libertou o Chile do marxismo", segundo as pesquisas de Cerc-Mori. Há uma década, Pinochet obteve o apoio mais baixo: 18%.

Um "estadista", afirma o advogado Luís Silva, do Partido Republicano e o mais votado em maio na eleição do conselho que redige uma nova Constituição que, em teoria, deveria substituir a promulgada pela ditadura (1973-1990).

O Partido Republicano, que controla esse conselho, ganhou força em meio à nostalgia dos pinochetistas e à preocupação da maioria dos chilenos com a insegurança (54% consideram-na o principal problema) e a chegada de migrantes.

"Nunca foi um estadista", respondeu o presidente Gabriel Boric, de 37 anos e que não era nascido quando ocorreu o golpe de Estado de 1973. "Ele foi um ditador, corrupto e ladrão", acrescentou o único dos cinco presidentes pós-ditadura que o condenou publicamente.

- Transição branda -

Em 11 de março de 1990, Pinochet entregou o poder após perder um referendo, mas permaneceu à frente do Exército por mais oito anos. Ele foi senador "vitalício" até 2002, quando renunciou.

Morreu aos 91 anos enquanto estava em prisão domiciliar por três casos de violações dos direitos humanos e um de desvio de verba pública. A sua ditadura de 17 anos deixou 3.200 vítimas entre mortos e desaparecidos.

A Concertación Democrática, uma coalizão de partidos de centro-esquerda, governou durante 20 anos após o fim da ditadura sem nunca mexer com a figura de Pinochet. Essa transição "branda" acabou por lhe dar "validade", explica a socióloga Lagos.

"Não é apenas a reprodução do que acontece em boa parte do mundo com o ressurgimento da direita mais radical, mas no Chile os governos de centro-esquerda pecaram por omissão", concorda o analista da Universidade de Santiago, Marcelo Mella.

Inspirado pela teoria do livre mercado dos "Chicago Boys", Pinochet aplicou o modelo de privatização sob o qual o Chile viveu anos de prosperidade e estabilidade econômica.

O ex-ministro da Concertación, Jorge Arrate, acredita que a figura do ditador permaneceu em vigor - com períodos de maior ou menor popularidade - enquanto "as instituições básicas do neoliberalismo" nunca foram reformadas.

Pinochet nunca foi julgado pelos crimes da ditadura, portanto também não recebeu sanção social unânime. Faltou tempo para condená-lo, afirma o ex-presidente do Supremo Tribunal entre 2010 e 2012, Milton Juica. Durante o regime militar, esse tribunal foi "completamente solidário com o regime", diz ele.

Somente em 2000 as denúncias de sequestro, estupro, assassinato e tortura começaram a ser investigadas em profundidade. Cerca de 250 militares estão presos por violações dos direitos humanos.

Ainda este ano, o Supremo Tribunal emitiu sentenças definitivas em casos emblemáticos como a "Caravana da Morte" ou o assassinato do cantor e compositor Víctor Jara, em 1973.

"Muitos dos que diziam que nunca iriam para a prisão começaram a ir", diz Juica.

M.Ito--JT