The Japan Times - Viés estético: como a beleza das borboletas europeias determina o seu destino na conservação

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Viés estético: como a beleza das borboletas europeias determina o seu destino na conservação
Viés estético: como a beleza das borboletas europeias determina o seu destino na conservação

Viés estético: como a beleza das borboletas europeias determina o seu destino na conservação

Uma investigação internacional com participação portuguesa demonstra que o viés estético determina quais as borboletas europeias que recebem mais atenção científica e financeira. Espécies consideradas belas beneficiam de maior proteção, enquanto as mais ameaçadas e discretas ficam desamparadas.

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Um estudo internacional, que contou com a participação de dois investigadores portugueses, concluiu que a perceção da beleza das borboletas europeias tem um impacto direto e decisivo no seu futuro. A pesquisa revela que as espécies consideradas esteticamente mais atraentes recebem significativamente mais financiamento para conservação, maior atenção mediática e mais esforços científicos do que as suas contrapartes menos vistosas, criando uma distorção crítica nas políticas de proteção da natureza.

A investigação, publicada na revista científica Current Biology, foi liderada por Leonardo Dapporto, do Departamento de Biologia da Universidade de Florença, e Mariagrazia Portera, do Departamento de Literatura e Filosofia da mesma instituição. O trabalho envolveu uma equipa de 36 investigadores de diversas áreas, incluindo sociologia e biologia, que procuraram responder a uma questão fundamental: até que ponto a estética determina o destino das espécies?

Os autores definem este fenómeno como um "viés estético" (beauty bias), uma distorção cognitiva que influencia as opiniões humanas sobre o valor de algo ou alguém. No contexto da conservação, esta preferência estética deixa de ser um simples gosto pessoal para se tornar um fator prático que decide quais espécies são estudadas, quais projetos recebem apoio financeiro e qual a atenção gerada pela sociedade.

Para quantificar este viés, os cientistas desenvolveram um "Índice de Beleza de Espécies" para as 492 borboletas diurnas da Europa, que representam praticamente todas as espécies do continente. O método baseou-se num inquérito online disponível em sete línguas, ativo entre julho de 2022 e janeiro de 2026. O questionário pediu aos participantes que avaliassem nove imagens de borboletas diferentes numa escala de zero a dez, respondendo à pergunta "Quão bonita te parece?".

O inquérito recebeu mais de 21.000 respostas de indivíduos em mais de 100 países. Portugal, embora tenha entrado na investigação numa fase mais tardia, foi um dos maiores contribuintes, com cerca de 600 respostas. Tatiana Moreira e Eduardo Marabuto, investigadores no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, no centro de investigação CE3C (Universidade de Lisboa) e na Associação BioLiving, coordenaram a participação portuguesa.

A análise das respostas permitiu identificar três características comuns nas espécies classificadas como mais belas: a presença de cores primárias, com destaque para o azul e o amarelo; a existência de asas com fortes contrastes de cores; e a forma alongada das asas, que podem ter margens semelhantes às folhas ou terminar em estruturas tipo cauda. Em contraste, as asas mais compactas tendem a receber avaliações inferiores.

Os investigadores explicam que estes resultados se alinham com a teoria da fluência do processamento, que sugere que estímulos mais fáceis de percecionar devido à baixa complexidade ou a altos contrastes são naturalmente percebidos como mais agradáveis. Ao cruzar estas avaliações estéticas com dados de investigação científica, atenção pública e proteção legal, o resultado foi consistente: quanto mais colorida, contrastante e ornamentada era a borboleta, mais investigação, mais atenção pública e mais proteção legal recebeu.

Este padrão é descrito pelos autores como um "efeito bola de neve" que se acumulou ao longo de décadas. As borboletas mais vistosas tornaram-se legalmente protegidas mais cedo, sendo incluídas na Convenção de Berna de 1979 e posteriormente nos anexos da Diretiva Habitats de 1992. Projetos de conservação apoiados pelo programa europeu LIFE tendem a priorizar estas espécies já inscritas nas listas oficiais.

Este maior investimento inicial gera um ciclo de reforço positivo: mais financiamento leva a mais investigação científica, que por sua vez resulta em mais sequenciação de ADN e armazenamento de dados em bases científicas. Simultaneamente, o aumento da visibilidade atrai mais cidadãos interessados em ciência cidadã, como os utilizadores das plataformas iNaturalist e Flickr, cujos dados são cada vez mais utilizados nas avaliações de conservação.

No entanto, este ciclo cria uma tensão crescente entre as prioridades históricas da conservação e a urgência ecológica atual. Muitas das espécies que hoje estão sob maior risco de extinção são borboletas discretas, escuras ou alpinas, consideradas menos bonitas pelo público geral. Estas espécies foram historicamente ignoradas pela pesquisa científica e pelas leis, apesar de estarem em perigo crítico.

A última Lista Vermelha das Borboletas Europeias, publicada em 2025 pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), revela que as espécies mais ameaçadas pelas alterações climáticas são frequentemente aquelas com aspetos menos conspícuos. Leonardo Dapporto destaca que "muitas das espécies atualmente em maior risco são borboletas discretas que historicamente receberam menos atenção".

O estudo alerta que decisões tomadas há décadas continuam a influenciar a distribuição de recursos, independentemente do risco real de extinção das espécies. Tatiana Moreira confirma que "as espécies ameaçadas não são necessariamente as mais belas, muito pelo contrário", observando que nas avaliações mais recentes, as espécies sob maior ameaça revelaram-se mais propensas a ser menos atraentes.

Os investigadores enfatizam que o problema não é a apreciação da beleza em si, mas a forma como as tendências implícitas humanas moldaram a conservação europeia. "Isto não é sobre ignorar a beleza da natureza", afirmam Dapporto e Portera. "É sobre reconhecer as nossas tendências implícitas humanas que moldaram a conservação europeia".

A equipa sugere uma mudança de perspetiva: em vez de ver a natureza como uma coleção de jóias, os cientistas propõem integrar o sentimento do belo numa "experiência sensorial e profunda da interligação ecológica", inspirando-se no trabalho de figuras como Charles Darwin, Barbara McClintock e Rachel Carson.

Tatiana Moreira sublinha que, se bem canalizada, a beleza pode tornar-se num motor de envolvimento público, em vez de uma fonte silenciosa de viés na conservação. Eduardo Marabuto acrescenta que é possível construir soluções vencedoras utilizando as espécies mais bonitas como "espécies bandeira". Ao proteger os habitats onde estas ocorrem, protege-se indiretamente todas as outras espécies, incluindo aquelas que ainda não são conhecidas ou que não despertam o mesmo apreio estético.

O estudo focou-se apenas nas borboletas diurnas. No entanto, os investigadores portugueses alertam para a necessidade de investigar se existe um viés semelhante nas traças (borboletas nocturnas). "Sabemos comparativamente pouco sobre borboletas nocturnas", explicam Tatiana Moreira e Eduardo Marabuto. "Por isso, apenas uma fracção de países europeus possui Listas Vermelhas para elas e, mesmo aí, a atenção foca-se tradicionalmente nas espécies maiores e mais garridas, deixando a imensa diversidade das micro-borboletas de fora da equação".

Para os dois coordenadores portugueses, investigar se existe um viés estético na investigação e conservação das traças é o passo óbvio a seguir, dada a falta de dados biológicos e de distribuição necessários para uma avaliação adequada do seu estado de conservação.

Y.Hara--JT